Onde está a felicidade?

Onde está a felicidade?

Onde está a felicidade? Está no muito ou no pouco? Dentro ou fora? Está no ser ou no ter, no sucesso ou no aprendizado? Nas pequenas alegrias cotidianas ou nas grandes conquistas de uma vida inteira? Estaria em regar uma flor, em criar um filho, em salvar o mundo? Na satisfação dos desejos ou no próprio desejo? Ou então, e por que não, na superação de qualquer desejo? Em mim ou no outro, no Eu ou no Nós? Estaria em fazer o que se gosta ou em aprender a gostar de tudo que se faz? Na liberdade, na sabedoria, na loucura, na ignorância? Onde fica essa tal felicidade? No caminho ou no caminhar, no destino ou na viagem? Fica num céu bonito, cheio de estrelas, numa ilha paradisíaca, num país melhor, num lugar ao sol, num amor correspondido, na beleza de uma manhã chuvosa ou no abraço de uma mãe, ou no fim do arco íris? Onde, afinal?

Muitos de nós aprendemos que a felicidade é algo a se buscar, algo que está lá em algum lugar, somewhere over the rainbow, à espreita, à espera, como uma coisa pronta, um objeto brilhante que podemos pegar e levar para casa: a flor mais bela do jardim, o tesouro do pirata, a medalha de ouro, o prêmio por uma vida digna ou pela coragem na luta, o paraíso terreno ou celeste. Mas o lugar exato onde ela está, e o que exatamente ela é, bom, aí depende de quem fala. Algumas pessoas até arriscam afirmar que a felicidade é uma coisa só, clara e definida, e está num único lugar – e existe, elas garantem, um único caminho para se chegar até ela. O resto é ilusão. Já outras sugerem que, pelo contrário, devem existir felicidades de todos os tipos, cores e sabores,   personalizadas para cada pessoa, fazendo dessa uma busca individual e intransferível. Sua felicidade não está onde a minha está, mas ambas são felicidades válidas, afinal, o que vale é ser feliz. Resiste, porém, a mesma concepção de felicidade como algo a ser buscado, conquistado, alcançado.

Mas e se abandonássemos essa metáfora e usássemos outra? E se pudéssemos ver a felicidade não como uma coisa pronta, brilhante e bonita, mas sim como um processo? Em vez de algo a se buscar ou conquistar, algo a se construir? Não a flor mais bela do jardim, mas talvez o próprio jardim. Aliás, nem isso – permitam-me ir realmente a fundo na mudança de conceito: e se a felicidade não fosse nem a flor, nem o jardim, (nem mesmo o jardineiro!), mas o ato de jardinar? Teríamos então que ela deixaria de ser um substantivo e passaria a verbo. Felicidade não seria um sentimento que sentimos, mas o próprio ato de sentir. A língua portuguesa ficaria louca tentando resolver essa questão. Em vez de dizermos “eu sou feliz” ou “eu quero ser feliz”, precisaríamos inventar um verbo novo, algo como “eu felicito” ou “eu quero felicitar”. A felicidade seria assim uma ação, um fazer, um sentir, um pensar, um querer, um agir no mundo. Mas, e lá vou eu de novo, e se complicássemos um tiquinho mais? Só um tiquinho. E se a felicidade não fosse nem coisa nem ação, mas um conhecimento? Nem flor, nem jardim, nem jardineiro, nem  jardinar, mas saber jardinar? Conhecer a flor, entender o jardim, compreender o jardineiro, dominar a jardinagem: enfim, e se a felicidade fosse um conjunto de conhecimentos? Termino essa reflexão da mesma forma que comecei: com perguntas. E se a felicidade não estivesse em lugar nenhum e nem fosse coisa alguma que precisamos conquistar? O que ela seria então? E se ela fosse, enfim, um tipo de consciência? Um tipo de aprendizado? E se “ser feliz” fosse, no fim, o mesmo que ser consciente? Mas consciente do quê?

  Por José Eduardo Mendonça Umbelino Filho

Próximo artigo “É aqui que você mora?” – Diálogo com a bibliotecária

Comentários

Mariza Mansur - 1 maio, 2022

Muito bom!
Eu diria que a felicidade é irmã gêmea da paz e da alegria, estados que só a evolução consciente promove dentro de cada um. Posso dar e proporcionar momentos de paz, de alegria e de felicidade para outros, mas daquela felicidade, a perene, que é de convicção, só posso indicar o roteiro.
😅

Susana - 1 maio, 2022

Amei a reflexão, acredito que a felicidade está dentro de casa um de nós, nas nossas atitudes para conosco e para com os outros, quando você leva uma palavra de amor ao próximo, quando você ouve u outro, e também quando você se ouve, se ama, ser feliz para ti e para os outros isso traz felicidade, a paz interior que habita dentro de cada um..
Para mim tudo isso me faz feliz!!

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